A Doença de Paget Óssea (DPO) é um distúrbio crônico que pode passar despercebido por longos períodos, sendo muitas vezes diagnosticado incidentalmente. No entanto, seu reconhecimento é essencial para evitar complicações como fraturas patológicas, deformidades e até transformação maligna. Com o avanço das técnicas diagnósticas e terapêuticas, o manejo dessas condições tornou-se mais eficaz, mas ainda exige uma abordagem cuidadosa.
O que é a doença de Paget óssea?
A doença de Paget óssea, também conhecida como osteíte deformante, trata-se de um distúrbio do metabolismo ósseo em esqueletos envelhecidos, caracterizado por uma acelerada taxa de remodelação óssea e um crescimento excessivo do osso, que pode ser em locais únicos (monostótico) ou múltiplos (poliostótico), afetando a integridade desse osso afetado.

A DPO é mais comumente monóstica, sendo presente em mais de 50% dos pacientes que desenvolvem a patologia. Dos ossos afetados, os mais acometidos são: pelve, fêmur, coluna lombar, crânio e tíbia.
Apesar de ser majoritariamente assintomática, jamais deverá ser menosprezada, por poder causar repercussões potencialmente graves nos indivíduos. Ela é considerada a segunda doença metabólica mais comum no mundo, depois da osteoporose.
Epidemiologia da doença de Paget óssea
Embora rara no Brasil, com a maioria dos casos relatados em países europeus, como Reino Unido, França, Espanha e Itália, estudos indicam que cidades como Recife e Florianópolis concentram a maioria dos casos registrados no país. Geralmente ocorre em pacientes brancos de ascendência europeia, ainda que possa acometer pacientes negros.
A doença acomete homens e mulheres, contudo, ela é ligeiramente mais prevalente em pessoas do sexo masculino do que no sexo feminino, em uma proporção de 1,4:1. Quanto à idade, a doença é rara em indivíduos com menos de 40 anos e costuma estar presente em pessoas com idade superior a 50 anos, tendo ainda relatos de que a incidência dobra a cada década após os 50.
Não podemos deixar de mencionar que, diante do fato de se tratar de uma doença frequentemente assintomática, acredita-se que a incidência da DPO é bem superior aos números registrados em pesquisas.
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Fisiopatologia da doença de Paget óssea
A DPO é caracterizada por uma taxa acelerada de remodelação óssea, o que resulta em um crescimento excessivo do osso em locais selecionados e integridade prejudicada dos ossos afetados. Por isso, a doença de Paget óssea se trata de uma patologia do osteoclasto, que é a única célula responsável pela reabsorção óssea.
Foi evidenciado que os osteoclastos no osso pagético apresentam uma aparência incomum, com um número desproporcional de osteoclastos com vários núcleos. Além disso, foi analisada a presença de corpos de inclusão intranucleares nos núcleos de osteoclastos pagéticos, o que não é encontrado em pessoas que não apresentam a doença.
Para que os osteoclastos funcionem, o corpo usa sinais químicos, como o RANKL e o MCSF, que ajudam essas células a se desenvolverem e se ativarem. O RANKL se liga a um receptor chamado RANK, estimulando os osteoclastos por meio de um mecanismo chamado NFkB. O corpo também tem uma forma de frear esse processo: a osteoprotegerina (OPG), que bloqueia o RANKL e impede a ativação excessiva dos osteoclastos. Além disso, hormônios e outras substâncias do organismo modulam essa atividade.
Acredita-se que causas genéticas e ambientais contribuam para a patogênese da doença. A base da suscetibilidade e desenvolvimento da doença de Paget óssea se dá por causas genéticas, por meio de mutações (principalmente no gene SQSTM1) que afetam a fisiologia óssea, por meio da perda do bom funcionamento da via RANK-RANKL.
Porém, cada vez mais vem se acumulando evidências de uma provável importância das interações gene-ambiente para a expressão da doença, incluindo a possível influência de infecções virais.
A ocorrência de infecções virais zoonóticas lentas, incluindo paramixovírus, aumentam o risco de remodelação óssea e da doença. Assim, a exposição a cães, gatos ou pássaros não vacinados pode estar associada a um risco aumentado do desenvolvimento da DPO. Outros vírus também podem estar associados com a expressão da doença, como o vírus do sarampo, o vírus da cinomose e o vírus sincicial respiratório.
Quais os sintomas?
Como já foi dito, a maioria dos pacientes com doença de Paget são assintomáticos. Nos casos sintomáticos, as manifestações vão estar relacionadas ao crescimento excessivo, deformidade ou fratura patológica do osso afetado pela doença. Os sintomas e achados mais vistos, em ordem de prevalência, em pacientes com DPO são:
- Artrite (40% a 50%)
- Dor (40 a 45%)
- Deformidade óssea (12 a 26%)
- Fratura (4 a 16%)
Estudos ainda mencionam outros achados no paciente pagético, ainda que com menor frequência, como radiculopatia por síndromes de compressão nervosa; dor crônica nas costas/ estado funcional prejudicado; perda auditiva e dor de cabeça.
A dor pode ser diretamente relacionada com o crescimento exagerado dos ossos ou pelas deformidades e fraturas em áreas afetadas, ou ainda por causas secundárias, como osteoartrite, compressão nervosa e tumor. Ela geralmente acontece em uma intensidade leve a moderada, do tipo profunda e dolorosa durante todo dia, mas que pode piorar mediante sustentação de peso.
A DPO tem uma predileção pelo crânio, coluna toracolombar, pelve e ossos longos das extremidades inferiores. O envolvimento do crânio pode levar, principalmente, a deformidade, perdas auditivas, dores de cabeça, zumbido e tonturas. Quanto à coluna vertebral, a DPO pode levar à estenose espinhal em qualquer nível, com compressão nervosa e dor concomitante.

Os ossos longos são um dos mais afetados, resultando em arqueamento de sua estrutura causada pelo aumento do contorno anormal dos ossos, além de artrite. Tal arqueamento pode resultar em alterações na marcha e aumento do estresse mecânico. Além disso, fraturas traumáticas e patológicas são as complicações mais comuns nesses ossos longos, sendo as fraturas femorais as mais frequentes.
ATENÇÃO! Pacientes com doença de Paget apresentam um risco elevado para o surgimento de neoplasias ósseas primárias, principalmente de osteossarcoma.

Diagnóstico da doença de Paget óssea
O diagnóstico da doença de Paget óssea é essencialmente radiológico. A investigação se dará naqueles casos que apresentem uma manifestação clínica sugestiva ou por um laboratório sugestivo, através de um nível elevado de fosfatase alcalina sérica isolada.
As radiografias geralmente são diagnósticas, evidenciando a deformidade características do osso, com córtices espessados marcados por tunelamento e trabéculas acentuadas. Os sinais típicos incluem:
- Lesões líticas em formato de “V” em ossos longos e osteoporose localizada no crânio nas fases mais iniciais da doença
- Espessamento da cortical e aumento das marcações trabeculares em estágios mais avançados
- Esclerose e aumento do volume ósseo, especialmente na coluna vertebral e nos ossos longos, nas fases finais da doença
A radiografia de crânio e das áreas suspeitas do esqueleto deve ser feita. O uso da cintilografia óssea com radionuclídeos também pode ser considerada para avaliar a extensão da doença e identificar locais assintomáticos, porém ele não deve ser feito de forma repetitiva após o tratamento.
ATENÇÃO! A biópsia óssea só deve ser utilizada principalmente em casos de dúvidas quanto à clínica, o que irá nos dar essa maior certeza do diagnóstico.
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Como fazer o tratamento?
O principal objetivo do tratamento é o alívio da dor e a normalização da taxa de remodelação óssea, enquanto que o sucesso do tratamento é avaliado pelo monitoramento periódico da fosfatase alcalina.
Nos pacientes sintomáticos, o tratamento deverá ser recomendado nos casos de elevado nível da fosfatase alcalina, ou ainda quando esse laboratório esteja normal, mas com evidência de doença ativa na cintilografia óssea.
Já nos casos assintomáticos mas com doença ativa, recomenda-se o tratamento nos casos em que são vistos complicações ou se o nível da fosfatase alcalina for maior que o dobro do limite superior do normal.
Atualmente, o melhor tratamento se dá pelo uso dos bifosfonatos contendo nitrogênio, como o ácido zoledrônico (principalmente), risedronato e alendronato. Infelizmente, os bifosfonatos podem conter efeitos colaterais, que seria principalmente o surgimento de uma resposta de fase aguda com duração de vários dias.
O médico também deve acompanhar os níveis séricos de cálcio e 25-hidroxivitamina D (calcidiol), uma vez que, em casos de carências, será necessário a suplementação.
Conclusão
A Doença de Paget óssea (DPO) é um distúrbio crônico do metabolismo ósseo, caracterizado por uma remodelação óssea acelerada e crescimento excessivo, que pode levar a fraturas, deformidades e até à transformação maligna. Embora seja assintomática na maioria dos casos, pode causar dor, artrite, deformidades ósseas e fraturas.
A DPO é mais comum em pessoas com mais de 50 anos, especialmente em indivíduos de ascendência europeia. O diagnóstico é principalmente radiológico, com a identificação de alterações nos ossos afetados. O tratamento visa aliviar a dor e normalizar a remodelação óssea, sendo realizado com bifosfonatos, com acompanhamento dos níveis de fosfatase alcalina.
Continue aprendendo:
- Artrite reumatoide: sintomas, diagnóstico e como tratar
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FONTES:
- Paget Disease of Bone - DynaMed EBSCO Information Services. Acessado em 24 de março de 2025.
- Siris E, Roodman GD. Paget Disease Section X. In: Primer on the Metabolic Bone Diseases, Favus MJ (Ed), ASBMR, Washington, DC 2003. p.495.
- Cook MJ, Pye SR, Lunt M, et al. Incidence of Paget's disease of bone in the UK: evidence of a continuing decline. Rheumatology (Oxford) 2021; 60:5668
- Alonso N, Calero-Paniagua I, Del Pino-Montes J. Clinical and Genetic Advances in Paget's Disease of Bone: a Review. Clin Rev Bone Miner Metab 2017; 15:37
- Martins, Mílton de, A. et al. Clínica Médica, Volume 5: Doenças Endócrinas e Metabólicas, Doenças Osteometabólicas; Doenças Reumatológicas. Disponível em: Minha Biblioteca, (2nd edição). Editora Manole, 2016
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